Estamos exigindo demais, crianças precisam brincar!

Em July 7th, 2016
Categorias: Desabafos

Recentemente fui à reunião final do semestre na escola do meu filho e é absurda a insistência dos pais para que as crianças saiam de lá alfabetizadas, tenham lição de casa, etc.

Meus filhos estudavam em escola particular e quando o bolso apertou tive que abrir mão disso, e tive medo. Lá eles tinham aulas de inglês, música, educação física, artes e levavam lição de casa. Na escola pública vi algo totalmente diferente, que na verdade me encantou. O brincar!

Leia aqui a saga da mudança da escola particular para a púbica

Quero deixar claro aqui que estou falando da educação infantil, não de ensino fundamental ou médio.

Lá as crianças têm duas refeições em meio período (boas refeições), aprendem a cozinhar e trazem a receita pra casa, brincam no parque, correm, cavam na areia, vão ao banheiro sozinhas, se servem sozinhas num buffet, como em restaurantes self-service sabe? Só que em escala “mini”, rs, e escovam seus próprios dentes. Recortam, colam, ouvem histórias, desenham, pintam, reciclam fazendo brinquedos, mexem no computador uma vez por semana, etc, etc. Brincam, muito. Pega-pega, esconde-esconde, fazem montagem com blocos.

Não tem pontilhado, não tem apostila, não tem lista de material. Isso assustou boa parte dos pais que na reunião insistiam para que as crianças “aprendessem”, para que consequentemente tenham um bom futuro.

Obviamente todos queremos isso para nossos filhos. Mas será esse o caminho? Entupi-los de responsabilidades, lições e afazeres?
Olhemos pra trás um pouco. O que a grande maioria dos adultos de hoje fazia na infância? Se vasculhar tua memória com certeza vai ver uma galera jogando bola na rua, ou descendo a ladeira de carrinho de rolemã. Fazendo esqui-bunda com um pedaço de papelão e caindo na grama. Guerrinha de mamona, pião, taco, pular elástico, amarelinha, bater figurinha, comprar bala no tio da esquina.

Agora analise os adultos/idosos que viveram tudo isso… a maioria está bem, com seu sustento, saúde e boas memórias de uma infância vivida no tempo certo.

Qual é a nossa realidade hoje? Medo resume. Medo de sair na rua pra brincar, e deixar os filhos brincando na rua, nem pensar! Se até nos bairros mais tranquilos existe perigo quem dirá nos grandes centros urbanos. Não tem como. A realidade da maioria é uma casa ou apartamento fechados com seus brinquedos eletrônicos ou já montados, que não exigem nenhum esforço e celulares, tablets, televisão.

Não estou demonizando nada disso, até porque a tecnologia tem muito a nos oferecer, mas fato é que algo está faltando para as crianças desta geração. E nós já estamos vendo frutos dessa privação. Nunca os consultórios estiveram tão cheios de jovens/adolescentes/crianças com problemas de saúde, psicológicos e até psiquiátricos.

Muitos pais têm dentro de si um lado competitivo que se aflora quando nasce um filho. Parece uma competição de mães contra mães, pais contra pais, pra ver que filho é mais bonito, mais inteligente, mais esforçado, mais educado. Pressionamos, apressamos pois queremos que eles se destaquem, que sejam os melhores, porque temos essa ideia deturpada de que se eles forem os melhores, serão felizes, e no fundo sabemos que não é nada disso.

Leia aqui sobre a competitividade entre as mamães

Há tempo para todas as coisas. A infância precisa ser vivenciada, desafios presentes na infância precisam ser vivenciados, e brincando (é claro que numa brincadeira guiada por quem entende do assunto, como os professores) as crianças se preparam melhor pro que vem a seguir e poderão também crescer com boas memórias, inclusive da escola, o que vai gerar nessa criança gosto por estudar, por ir à escola.

Apressar e dar às crianças responsabilidades que elas ainda não estão prontas para assumir pode gerar nelas sentimento constante de frustração. É como pegar pelas mãos um bebê de dois meses e soltá-lo, exigindo que ande.
Existem é claro as exceções, mas são exceções. Eu por exemplo, sempre gostei de estudar. Por diversas vezes inventava coisas pra fazer quando não tinha lição. Passei meus cadernos a limpo umas três vezes. Mas quantas pessoas são assim?

Leia: O que estamos fazendo com as nossas crianças?

Devemos olhar pra nós e analisar se não estamos nos preocupando demais, complicando o simples.
Cada criança tem seu tempo e um dos maiores exemplos da história está no maior físico que já viveu, Albert Einstein. Até os 4 anos ele nem falava. E era péssimo em matemática também, o que nos leva a uma outra questão sobre os tipos de inteligência, que falarei em outro post.

Fato é que, para uma criança nada como uma brincadeira para que haja aprendizado. Eles aprendem brincando e a infância não volta. Então deixem as crianças brincarem.

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Por Joana
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