Mario Sergio Cortella: ‘Os pais esquecem que a família não é uma democracia’

Em May 16th, 2017
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No dia 12 de maio o educador Mario Sergio Cortella deu uma entrevista ao Estadão

sobre a educação das crianças no dia de hoje, e eu achei tão interessante, mas tão interessante que resolvi transcrevê-la pra cá e pontuar tudo com a minha opinião pessoal.

Lembrando que, cada um cria seu filho como quer, mas as consequências não deixam de vir.

  • O texto original foi escrito por Isabela Palhares e você pode lê-lo aqui.

    Mario Sergio Cortella fala da importância de se criar filhos que obedeçam a autoridade dos pais

    Estão criando crianças soberanas e não autônomas Foto: Ricardo Chicarelli/Estadão

O senhor fala que a atual geração de pais dá “toda voz” às crianças. A falta de tempo faz com que os pais optem por evitar confronto com os filhos?

A falta de tempo é uma das causas. Ela não é exclusiva, mas extremamente significativa. Afinal de contas, quando um casal inicia uma discussão, é preciso ter tempo para levá-la adiante e concluí-la, de modo a não sofrer alguma ruptura. A ausência do tempo de convívio leva a uma rarefação também do tempo de enfrentamento. Eu uso a palavra enfrentamento sem nenhum tipo de pudor. Porque toda relação de educação tem dentro dela um enfrentamento.

Opinião: Eu acredito que sim. Muitos investem a maioria do seu tempo com trabalho, visando dar uma qualidade de vida melhor para os seus filhos, mas se esquecem de dar a atenção e tempo de qualidade pra eles, o que é imprescindível para que cresçam mentalmente saudáveis.

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O senhor fala do medo dos pais em confrontar os filhos, de discipliná-los e entristecê-los. Há uma geração de pais com medo de exercer autoridade?

É uma geração que inverteu a relação. Afinal, quando tenho responsabilidade sobre alguém, tenho sempre de lembrar que ela está sob a minha ordenação, está subordinada a mim. Isso não significa que ela seja submissa ou inferior, mas que, do ponto de vista familiar ou legal, tenho responsabilidade por aquele cuidado. A sensação é que os pais se sentem responsáveis para que o filho seja feliz naquela circunstância imediata. É uma felicidade que não é construída e projetada para um aproveitamento mais adiante, é apenas imediata. Há um grande número de pais e mães que enfraqueceram a sua autoridade.

Opinião: Eu pessoalmente acredito que seja mais medo de não obter o amor e apreço dos filhos, e a culpa por deixá-los muito tempo na escola ou com outras pessoas que não sejam os próprios pais. Na luta pelo amor dos filhos, muitos pais acabam ficando cegos.

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A preocupação excessiva de deixar as crianças em situações prazerosas e a dificuldade de imposição de limites as prejudica?

É uma ilusão imaginar que cabe aos adultos fazer com que crianças e jovens estejam o tempo todo se divertindo. Essa perspectiva hedonista, de uma energia movida apenas pela busca contínua do prazer, é muito danosa porque deforma o que temos de formar nas crianças. Uma grande parte dos jovens tem dificuldade de lidar com a recusa dos desejos. Uma parte dos filhos hoje é criada por pais que assimilam a ideia de que os desejos são direitos e, portanto, é preciso corresponder, outorgá-los. Essa condição, em que se procura o tempo todo dar conta dessas necessidades, enfraquece a nova geração.

Opinião: Muito. A frustração é necessária para o desenvolvimento saudável das pessoas. Uma criança que não aprende a lidar com as frustrações ao longo da infância se tornará um adulto que não sabe lidar com as frustrações. Os resultados disso são absurdamente ruins para a pessoa em si e todos os que a rodeiam.


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Há uma busca muito grande dos pais hoje para oferecer aos filhos o maior número de atividades para que se destaquem. Temos hoje crianças muito estimuladas, mas pouco motivadas?

A motivação parte de dentro e o estímulo vem de fora. Pais precisam ser capazes de estimular a motivação na criança. Esse excessivo agendamento da vida de crianças e jovens, que os deixam quase sem tempo livre, tem uma perspectiva muito mais de preparação para um mundo de combate do que para uma formação densa de valores. Aliás, uma parcela dos adultos usa, em relação aos seus filhos, uma linguagem bélica: “Tenho de preparar meu filho para o combate”, “para a luta da vida”, “para a competição”. Como se a vida fosse uma corrida de 100 metros rasos com barreiras, em que você dispara e cai quase desmaiado no final. Não, a vida é mais como uma maratona. E temos de formar crianças e jovens para essa percepção: a maratona exige situações em que você economiza fôlego, acelera, recua.

Opinião: Acredito que temos crianças muito ocupadas, muitas vezes sem tempo pra simplesmente brincar (o que para eles é imensamente significativo) e pra ficar entediado (o que por incrível que pareça é bastante importante pro desenvolvimento deles também).

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Sempre é possível restabelecer uma boa relação com os filhos?

Claro. O pai que diz não ter alternativa assume a falência da capacidade de ação. Quem tem responsabilidade sobre alguém não pode desistir e, afinal, quem ama não desiste. Há pais que estão criando crianças soberanas e não autônomas. Também esquecem que a família não é uma democracia – um conceito político que se aplica a um conjunto de cidadãos com direitos iguais. Uma família pode ser uma estrutura participativa, mas não democrática. Pais e filhos têm os mesmos direitos no que diz respeito à dignidade humana, mas é preciso exercer autoridade. Dar a mesma autoridade à criança é uma responsabilidade que ela não pode carregar.

Opinião: Com certeza. Quem ama, diz não quando necessário. E com o tempo as crianças vão entendendo o que é realmente amar, e com isso a relação se fortalece cada vez mais. Além do que, eles nos amam incondicionalmente.
Concordo muito com o que ele diz no final, sobre a democracia. Parece duro, mas precisa ser assim.

Uma criança não tem capacidade de lidar com certas decisões e situações que os adultos vivem.

Dar a mesma responsabilidade à criança é um peso que ela não pode carregar. O cérebro dela fisiologicamente falando ainda não tem capacidade pra exercer a autoridade de uma maneira saudável.

Eu digo não para os meus filhos agora, para que eles saibam receber o não da vida mais tarde, e saibam lidar com ele da melhor maneira possível!

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Por Joana
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